segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Vida: substantivo feminino.

Aprendeu a vida, não sei com quem, a ser fazer de difícil.

A contrariar as expectativas do inconsciente
e chegar atrasada para as do consciente.

Bruta, só é fogo quando quer.
Sabe ela (e aceita)  que surpresa só é surpresa se for de surpresa.

De fato a vida se dá melhor com o tempo que nós, donos ansiosos.
Ela não envelhece, faz do presente botox
e do futuro não faz tanto assim.

Danada demais pra ser constante,
sabe ela que os segundos
passam devagar, mas as horas não.

Banana real

Já não quero ler sobre folhas que caem,

sobre vento que bate
ou qualquer outro contraste de leve com pesado.

Chega de tanto olho pro alto, aridez de asfalto
de contar imensidão.

Hoje eu quero abraçar nada mais do que está na minha frente.
Abraçar com o que se sente, sem essa de sentar pra pensar.

Sentar? Só sem acomodar. Desacomodar só pra levantar. Levantar e impulsionar.

Avante não digo,
"avante" me tosse facista
E eu hoje tô natural, nem do bem, nem do mal, com açucar cristal, que nem banana real.

Júlia Carvalho

Uma salva de risos, por favor.

Traço como meu

o objetivo de esticar as bocas alheias.
Cirurgiã do humor,
quero arrancar sorrisos que escapulam o rosto.

Encher seus pulmões,
menor e maior, de puro ar
e pocar de rir todo dono de alma
como plástico bolha.

É de prazer que falo. É por prazer que faço.
Cosquinhas embaixo da orelha,
Dentes fresquinhos ao ar.

Desapego as regras.
Reinvenção do óbvio.

Meninas regras,
regadas a equilíbrio,
que desabam ao riso,
tentadas em sua puberdade.
Essa coisa de revolução do humor
é pura piada com amor.

Júlia Carvalho

O acho, o mato e o céu.



Acho que nasci pro mato.
Digo "acho" porque tenho medo de cobra.

Dizem que Deus não dá asa a cobra.

Mas se ele tivesse dado, eu teria medo de olhar pro alto.
E também acharia que nasci pro céu.

Júlia Carvalho

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Não me deixe fria.


Até onde vai a tolerancia e a consciencia do gesto?
E o pensamento persuadido? Sem ele não há romance. Sem ele não há paixão.
É tanta gente "sabida". Tão "sabida" que medo dá.
Medo do esfriar, que aquece, aquece, satura, amornece e o amor desce. Desce à desilusão.
Não me sature, se não perco as expectativas. Não desnature.
Quero meu ser um tanto involuntário.
Então não me largue tanta saber, agora a emoção faz mais razão que a própria razão.
Sejamos bons, bons com o momento, pensando grande, agindo grande. E por favor: sem medo de errar. Porque errar é humano, e humano eu quero continuar sendo.

ps: também não me exija acentos, o unico chapéu que poderia dar a tolerancia e a consciencia já foi dado. E gerou gol.

eu não tô falando de futebol.

sábado, 15 de março de 2014

Descoberta

Estranho mesmo é passarmos tanto tempo confinados em pequenos espaços. Saímos cedo e na cerca das 12h fora de casa a única coisa que fazemos é sair de pequenos quadrados pra entrar em outros. Seja o ônibus (carro pros melhorzinhos), a sala de aula, a mesa de trabalho, o apartamento. Parece que tudo lhe abraça, lhe conforta e você se vicia. Ficar escondido torna-se algo imperceptivel.
Hoje aconteceu algo no mínimo curioso, já eram 22h e pouca, quando um som estupidamente irritante se soltou no ar e eu, assim como toda vizinhança pensei "vai buzinar na casa da..." E claro, depois de 1 minuto de barulho constante eu tive que sair pra conferir qual era a intenção de tal estupidez. E eu fiquei surpresa. Um taxista estava parado na frente do meu prédio tentando consertar a buzina do seu carro. Sim, não é algo surpreendete. Na verdade, o que me chamou atenção, foi a quatidade de pessoas que sairam na sacada de seus apartamentos, curiosas, assim como eu. Obviamente "desconfiava" da existencia de vizinhos, mas vê-los todo em suas varandas foi bastante divertido. Tomara que mais carros gritem aqui na frente, rodem a baiana chamando a cidade pra ver as luzes dos prédios, os carros passando e os vizinhos curiosos.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Nem sempre, vez em quando

As vezes a gente começa com o "as vezes" e as vezes a gente nem começa. As vezes a gente dorme.

Porém não são todos os dias em que conseguimos arrancar poesia do que passa desatento cotidianamente aos nossos olhos. Não são todos os dias em que enxergamos partituras nos fios dos postes ou simplesmente observamos a fundo paciência do cobrador de ônibus.
Não são todas as manhãs que encontramos senhoras caminhando com terço em mãos. E nem todas lhe encaram timidamente na esperança de receber um bom dia. Mas quando ele vem,  ela volta a se concentrar em suas ave-marias mais embaladamente, quem sabe até rezando pelo educado.
Não são todos os dias que encontramos um cachorro deitado nas entrelinhas de sombras de um viaduto, absorto, olhando pro céu como se isso disfarçasse pros veículos que ele está se coçando com o calor. Nem sempre ele lembra da língua insistente que carrega na boca, mas ele a sacode, e isso é tão vital.
Não são em todos dias os fins de dia que alguém se preocupa em acordar uma figura cansada no ônibus para que ela não perca o ponto. Alias, nem sempre vale a pena dormir no ônibus.
Tem dias que a rotineira volta pra casa vira passeio. O intervalo vira recreio. E a gente passa a ver o trânsito como uma grande oportunidade de entender pra onde vai esse ônibus da vida.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Papel ofício

Quantas crianças te pararam hoje pra pedir ou no mínimo vender alguma coisa? É incrível a quantidade de menores soltos por Salvador e a sua desenvoltura dentro da cidade. Alguns trabalham, outros pedem, outros assaltam, outros te observam. Aconteceu comigo algo no mínimo curioso essa semana com uma dessas crianças. Tava chegando em casa, eram 5 ou 6 da tarde, quando reparei numa menina deitada em um papelão observando criticamente uma revista. Ao me ver, como eu já previa, deixou o pedaço de revista de lado, levantando em minha direção. Ela parecia ter uns 8 anos, tinha od cabelos curtinhos e uma tiara improvisada com um pano na cabeça, não estava sorrindo, muito menos fazendo cara de fome, foi determinada e direta, me surpreendendo com seu pedido: -Tia, você me dá uma folha do seu caderno?
Eu que já estava pronta a declarar minha falta de moedas (que era verídica) me senti imprestável ao não ter um caderno dentro da bolsa que ela mesma apontava. Justifiquei minha falta de folhas e segui em frente. Ao chegar em casa e olhar todas aqueles papeis em cima da mesa, recolhi alguns limpos e levei para a garota. Eram ofício, todas limpinhas como aquelas que eu roubava da máquina de xerox da livraria da minha mãe pra desenhar. Ao receber e olhar bem as folhas ela ficou me olhando e balançou a cabeça em sinal de agradecimento. Não sei se me achou engraçada por voltar só pra trazer folhas ou se as queria com linhas. O que sei é que ela provavelmente não vai a escola e não sabe ler as palavras daquela revista, mas como toda criança, ela brinca, nem que saiba de ser como as "tias" que passam com cadernos cheios de linhas preenchidas por
anotações e livros entupidos de letras.

Não só de comida vivem os moradores de rua. Não só de mamadeira se cria um filho. Não precisamos de tais relatos pra saber que educação muda o mundo e nem precisamos de tanto saber pra saber que educação gera muito mais que comida.