sexta-feira, 3 de julho de 2015

“molha-pedrestre”

-Começa mais um campeanato de molha-pedrestre nas ruas de Salvador!
-A arquibancada está lotada, ponto de onibus cheio, poças de água bastante sujas e o mais importante: inúmeros competidores raivosos.
- É, o jogo começa como o previsto, as maiores máquinas fazem jus a sua potencia e permanecem na frente da competição.
-Mas espera um pouco! Você está vendo aquele competidor?
-Nossa! Alguém em alta velocidade na mão oposta!
-E ele está num 1.0!
-Uau! Ele acaba de ultrapassar 3 carros na contra-mão superando a altura de água arremeçada por todos os carros anteriores!
-Foram mais de 6 pedestres atingidos! Recorde dessa edição!
-Muito boa demostração! Mas acho que o ritmo está caindo
-Já resolvemos isso! Era uma moça muito bonita que estava no ponto, mas a produção já tratou de retirá-la!
-Como assim?
-Ela estava atrapalhando os famosos machões que passam devagar pra dar uma buzinada, perguntar lugares que já sabem onde ficam
-Muito bem, produção! Tem que jogar água, não charme!
-E olha só, parece que a competição vai ganhar força novamente! Lá vem um dos competidores mais temidos: é o gigante carro de lixo!
-Esse competidor, devido a baixa velocidade, não costuma molhar muitos pedestres, nem levantar águas em grandes alturas, mas, carregado de lixo molhado e pingando chorume pelas ruas da cidade, ele abre uma boa vantagem na tabela dos piores motoristas dos dias de chuva.
-Você tem razão, nosso competidor fez uma jogada cautelosa, mas deixou rastros!
-E lá vem mais um atleta, essa competição está mesmo muito emocionante!
-Huuum, carrinho vermelho, ziguezagueando pela pista? Você sabe o que significa isso né?
-É o famoso motorista de auto-escola! E parece que é mulher!
- Mulher? Essas são minhas preferidas! Sempre querendo estragar a chapinha das inimigas!
- Olha essa manobra!
-É o famoso Freio em cima da poça. Esse drible é bastante eficiente pra quem sabe executar, impulsiona a água com volume em cima da galera.
-Muito bom para uma iniciante, hein?
-A competição está realmente incrível, mas estou sentindo falta de um competidor, você não?
-Mas é claro! Os imbatíveis motoristas de ônibus!
-Onde estão os invictos?
-Você não sabe? - fala cochicando - Greve dos rodoviários.
-Greve do coletivos?!
-Fale baixo!
-Não posso falar que hoje não vai ter buzu?
-Olha só o que você fez! Os pedestres que estavam no ponto esperando estão indo embora, eles ainda não sabiam, a notícia foi ocultada para não haver cancelamento do evento!
-Não! Voltem! Ainda temos os taxistas e os caminhoneiros e os moto-boys pra competir
-Da próxima você trata de ler a pauta do programa direito!
-Poxa!
-E assim terminamos mais uma competição de  molha-pedestre, continuem ligados na nossa programação!
-Mais tarde temos a divertida fuga da lei-seca, com os motoristas bêbados mais espertos de Salvador!
Obrigada pela audiência! - cochichando - Agora vá soltar pra galera que o waze está fora do ar hoje!

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Ser tão

Feita de Sertão,
de amarelo com azul,
de terra com céu.

É o pé no chão
no pé de chão.
O chão na palma da mão.

O plano é árido
E tem sempre um plano
E um bussola que aponta pra si.

Dono do que faz.

Manda recado
Faz promessa
Mata a sede com abundância.
Enchente de fé.

A espera é ao som de grilo
grilos que vivem
no melhor pedaço do mundo.

Alimento

Para fazer um livro
daqueles gordinhos
de poema
Tem que passar muita fome,
e quando comer
mastigar muito pra engolir.
Caso o contrario,
se faz sem ser
fica barrigudo, mas desnutrido.

Eu ainda tô na engorda.
                                                           
       

                                                                Júlia Carvalho

Andorinha

O universo, mesmo infinito,

não é celeste depois do céu.
As palavras, mesmo finitas,
só acabam depois que transbordam e molham o pé de quem a gente ama.
A gente é isca
a vida é peixe: escorregadia e sem pálpebras.
Vida não dorme,
só balança.
Quando não derruba, nina a gente em seu colo.
Somente os bichos sabem para onde vão.
Afinal, passarinho canhoto não voa torto.
E uma andorinha só diz: vocês verão.


Júlia Carvalho

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

senhorinhas

A cidade grande continua sendo palco de muitas histórias das quais participo e as vezes só sou expectadora. Mas, o melhor desses espetáculos são quando seus personagens não percebem a sua graciosidade e a ingenuidade toma conta da cena. Hoje, no ponto de ônibus, vi duas senhorinhas iguaizinhas, se não eram gêmeas, eram no mínimo irmãs. Cabelos branquinhos, presos no estilo Marina, sandália ortopédica e vestidos de florzinhas pequenas. Vestidas quase iguais, diferenciavam-se apenas na estampa da roupa. Bem serelepes afirmavam para uma outra Senhora, essa um pouco mais moderna na idade e no figurino, que “viver em prédio não é coisa de gente” e partilhavam ali vantagens de viver no interior, eu concordava silenciosamente em gênero e número, inclusive o fato de ser desnecessário “mofar” nos pontos à espera de algo que nos carregue para outro lado da cidade. Após a terceira senhora desistir, não sei por qual motivo, de pegar o ônibus, as duas ficaram sentadinhas a contar os carros.
Logo apontou na ladeira um ônibus, lá vinha o Pituba R2, as duas se levantaram e deram as mãos, a de florzinhas azuis, provavelmente a mais velha, deu sinal. O ônibus parou e com o mesmo dedo que ela pediu para parar, sacudiu afirmando o engano, não era o ônibus vermelho. As duas tornaram sentar. De lá veio Nordeste, e de novo, bastou o ônibus apontar a 200 metros e elas já estavam de pé, mãos dadas, convencidas de que era aquele, novamente não foi e elas tornaram sentar. Lá vinha o terceiro ônibus e elas mal tinham se acomodado. De pé tornaram ficar para concluir que não era o Santa Cruz R1 o ônibus que elas esperavam. Na terceira sentada eu já estava virando o rosto para esconder a graça misturada com fofura que tomava conta de mim. Não estava rindo delas, estava sorrindo delas! Me sentia tão feliz ali, perto das irmãs decididas, que ao aparecer um dos últimos ônibus que faltavam na esquina, fiquei, sem maldade, torcendo para a cena se repetir e elas permanecerem mais uns minutinhos comigo, mas não teve jeito minhas amigas foram fazer não sei o que na Itinga.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Vida: substantivo feminino.

Aprendeu a vida, não sei com quem, a ser fazer de difícil.

A contrariar as expectativas do inconsciente
e chegar atrasada para as do consciente.

Bruta, só é fogo quando quer.
Sabe ela (e aceita)  que surpresa só é surpresa se for de surpresa.

De fato a vida se dá melhor com o tempo que nós, donos ansiosos.
Ela não envelhece, faz do presente botox
e do futuro não faz tanto assim.

Danada demais pra ser constante,
sabe ela que os segundos
passam devagar, mas as horas não.

Banana real

Já não quero ler sobre folhas que caem,

sobre vento que bate
ou qualquer outro contraste de leve com pesado.

Chega de tanto olho pro alto, aridez de asfalto
de contar imensidão.

Hoje eu quero abraçar nada mais do que está na minha frente.
Abraçar com o que se sente, sem essa de sentar pra pensar.

Sentar? Só sem acomodar. Desacomodar só pra levantar. Levantar e impulsionar.

Avante não digo,
"avante" me tosse facista
E eu hoje tô natural, nem do bem, nem do mal, com açucar cristal, que nem banana real.

Júlia Carvalho