As vezes a gente começa com o "as vezes" e as vezes a gente nem começa. As vezes a gente dorme.
Porém não são todos os dias em que conseguimos arrancar poesia do que passa desatento cotidianamente aos nossos olhos. Não são todos os dias em que enxergamos partituras nos fios dos postes ou simplesmente observamos a fundo paciência do cobrador de ônibus.
Não são todas as manhãs que encontramos senhoras caminhando com terço em mãos. E nem todas lhe encaram timidamente na esperança de receber um bom dia. Mas quando ele vem, ela volta a se concentrar em suas ave-marias mais embaladamente, quem sabe até rezando pelo educado.
Não são todos os dias que encontramos um cachorro deitado nas entrelinhas de sombras de um viaduto, absorto, olhando pro céu como se isso disfarçasse pros veículos que ele está se coçando com o calor. Nem sempre ele lembra da língua insistente que carrega na boca, mas ele a sacode, e isso é tão vital.
Não são em todos dias os fins de dia que alguém se preocupa em acordar uma figura cansada no ônibus para que ela não perca o ponto. Alias, nem sempre vale a pena dormir no ônibus.
Tem dias que a rotineira volta pra casa vira passeio. O intervalo vira recreio. E a gente passa a ver o trânsito como uma grande oportunidade de entender pra onde vai esse ônibus da vida.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Papel ofício
Quantas crianças te pararam hoje pra pedir ou no mínimo vender alguma coisa? É incrível a quantidade de menores soltos por Salvador e a sua desenvoltura dentro da cidade. Alguns trabalham, outros pedem, outros assaltam, outros te observam. Aconteceu comigo algo no mínimo curioso essa semana com uma dessas crianças. Tava chegando em casa, eram 5 ou 6 da tarde, quando reparei numa menina deitada em um papelão observando criticamente uma revista. Ao me ver, como eu já previa, deixou o pedaço de revista de lado, levantando em minha direção. Ela parecia ter uns 8 anos, tinha od cabelos curtinhos e uma tiara improvisada com um pano na cabeça, não estava sorrindo, muito menos fazendo cara de fome, foi determinada e direta, me surpreendendo com seu pedido: -Tia, você me dá uma folha do seu caderno?
Eu que já estava pronta a declarar minha falta de moedas (que era verídica) me senti imprestável ao não ter um caderno dentro da bolsa que ela mesma apontava. Justifiquei minha falta de folhas e segui em frente. Ao chegar em casa e olhar todas aqueles papeis em cima da mesa, recolhi alguns limpos e levei para a garota. Eram ofício, todas limpinhas como aquelas que eu roubava da máquina de xerox da livraria da minha mãe pra desenhar. Ao receber e olhar bem as folhas ela ficou me olhando e balançou a cabeça em sinal de agradecimento. Não sei se me achou engraçada por voltar só pra trazer folhas ou se as queria com linhas. O que sei é que ela provavelmente não vai a escola e não sabe ler as palavras daquela revista, mas como toda criança, ela brinca, nem que saiba de ser como as "tias" que passam com cadernos cheios de linhas preenchidas por
anotações e livros entupidos de letras.
Não só de comida vivem os moradores de rua. Não só de mamadeira se cria um filho. Não precisamos de tais relatos pra saber que educação muda o mundo e nem precisamos de tanto saber pra saber que educação gera muito mais que comida.
Eu que já estava pronta a declarar minha falta de moedas (que era verídica) me senti imprestável ao não ter um caderno dentro da bolsa que ela mesma apontava. Justifiquei minha falta de folhas e segui em frente. Ao chegar em casa e olhar todas aqueles papeis em cima da mesa, recolhi alguns limpos e levei para a garota. Eram ofício, todas limpinhas como aquelas que eu roubava da máquina de xerox da livraria da minha mãe pra desenhar. Ao receber e olhar bem as folhas ela ficou me olhando e balançou a cabeça em sinal de agradecimento. Não sei se me achou engraçada por voltar só pra trazer folhas ou se as queria com linhas. O que sei é que ela provavelmente não vai a escola e não sabe ler as palavras daquela revista, mas como toda criança, ela brinca, nem que saiba de ser como as "tias" que passam com cadernos cheios de linhas preenchidas por
anotações e livros entupidos de letras.
Não só de comida vivem os moradores de rua. Não só de mamadeira se cria um filho. Não precisamos de tais relatos pra saber que educação muda o mundo e nem precisamos de tanto saber pra saber que educação gera muito mais que comida.
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