terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Nem sempre, vez em quando

As vezes a gente começa com o "as vezes" e as vezes a gente nem começa. As vezes a gente dorme.

Porém não são todos os dias em que conseguimos arrancar poesia do que passa desatento cotidianamente aos nossos olhos. Não são todos os dias em que enxergamos partituras nos fios dos postes ou simplesmente observamos a fundo paciência do cobrador de ônibus.
Não são todas as manhãs que encontramos senhoras caminhando com terço em mãos. E nem todas lhe encaram timidamente na esperança de receber um bom dia. Mas quando ele vem,  ela volta a se concentrar em suas ave-marias mais embaladamente, quem sabe até rezando pelo educado.
Não são todos os dias que encontramos um cachorro deitado nas entrelinhas de sombras de um viaduto, absorto, olhando pro céu como se isso disfarçasse pros veículos que ele está se coçando com o calor. Nem sempre ele lembra da língua insistente que carrega na boca, mas ele a sacode, e isso é tão vital.
Não são em todos dias os fins de dia que alguém se preocupa em acordar uma figura cansada no ônibus para que ela não perca o ponto. Alias, nem sempre vale a pena dormir no ônibus.
Tem dias que a rotineira volta pra casa vira passeio. O intervalo vira recreio. E a gente passa a ver o trânsito como uma grande oportunidade de entender pra onde vai esse ônibus da vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário